O futuro da internet: em direção a uma ciberdemocracia planetária

Gabriela Rousani Pinto
gabrielarousanip@gmail.com

Renata Leite da Silva Cruz
renatalscruz@gmail.com

Rodrigo Job Magalhães
rodrigojobm@gmail.com

No dia 31 de outubro de 2016, os pesquisadores do CEPEDI discutiram o livro “O futuro da internet: em direção a uma ciberdemocracia planetária”. A obra é uma tradução da edição Cyberdémocracie: Essai de Philosophie Politique, de Pierre Lévy, publicada em 2002, na França, pela editora Odile Joacob. A reformulação e atualização dessa obra deve-se a parceria com o professor André Lemos, da Universidade Federal da Bahia.

O texto inicia elencando dados da crescente evolução da comunicação na web. Em 2008, cerca de quase 80% da população dos países industrializados estava conectada à Internet em suas residências, o mesmo se aplica aos países em desenvolvimento. No Brasil, por exemplo, a taxa de conectividade cresce mais do que na China, Índia e Rússia, quanto à mobilidade, uso de smart phones, o país aparece em segundo lugar entre as nações com maior interesse, vindo atrás apenas do México.

Assim, a passagem do modo industrial para a era informacional, promoveu uma mudança de paradigmas, a interconexão de informações e bens de capital proporciona a descentralização do modo de produção.

Dessa forma, o autor relata que a sociedade da informação é uma realidade mundial, transformando os espaços de comunicação, promovendo o pensamento mais colaborativo, plural e aberto. Com isso, a computação social aumenta as possibilidades de inteligência coletiva e por sua vez, potencializa as ações de massa, gerando pressão sobre as esferas administrativas.

A partir da Web 2.0, que proporcionou uma construção colaborativa das informações na rede, os internautas se transformaram nos protagonistas da comunicação social, recolhendo, filtrando, redistribuindo, fazendo circular a informação, a influência, a opinião, a atenção e a reputação de um dispositivo a outro. Os novos meios de comunicação passaram a funcionar em um ambiente descentralizado, em que os usuários da rede fornecem, ao mesmo tempo, os conteúdos, a crítica, a filtragem e se organizam, elas mesmas, em redes de troca e de colaboração.

A qualidade da democracia, segundo análise do autor, provém da capacidade de aquisição de informação, de expressão, de associação e de deliberação dos cidadãos. O uso de ferramentas de comunicação sem controle da emissão, produzido por vozes livres e independentes, busca reconfigurar a cultura política contemporânea. Resultado desse processo, a cibercultura pode ser entendida como o resultado da colaboração em rede na construção do pensamento cultural e político da sociedade e tem, como objetivo, a “liberação” da palavra aos cidadãos.

A “liberação” da palavra é imprescindível para o desenvolvimento da ciberdemocracia, que é um tipo de aprofundamento e de generalização das abordagens de uma livre diversidade em espaços abertos de comunicações e de cooperação, que visa a construção das políticas e serviços a partir da escolha dos cidadãos.

As novas tecnologias de informação e comunicação proporcionaram o protagonismo dos internautas na construção das informações em rede e, consequentemente, nas transformações sociais. Entretanto, a maior informação e participação dos cidadãos na reconfiguração política e cultural só é possível a partir do desenvolvimento, da ampla divulgação e da constante melhora de ferramentas governamentais acessíveis ao público, juntamente com a vontade política em colaborar de cada um.

Neste sentido os autores destacam ainda o termo “gatekeepers” para o antigo modo de geração de conteúdo através dos grandes centros midiáticos tradicionais, ao passo que pela mutação das mídias emergem os “gatewatchings”, novos indivíduos-editores de conteúdo em tempo real.

A nova forma de arquitetura e fundação da sociedade atual tem como centrômero um cenário menos árido em duas esferas: política e cultural. Neste viés, observa-se em Lévy e Lemos, apontamentos acerca desta nova construção sob a égide de uma comunidade digital voltada a alterar certos panoramas clássicos e antes engendrados na perspectiva de pouca usabilidade dos sistemas políticos, culturais, econômicos, e sociais percebidos então pelos indivíduos partícipes deste grupo.

A democracia presente nestas comunidades digitais, as quais aderem o preceito básico de alteração dos mecanismos clássicos da sociedade, também visualiza que os impasses e adversidades presentes nas cidades, podem facilmente serem solucionados se estiverem inseridos neste contexto digital; questão a qual é abordada no capítulo  “…Cidades digitais” pelos autores.

Nessa perspectiva que as comunidades locais têm sua identidade alterada para a perda do caráter turvo com relação à transparência, para o ganho da chamada transparência desenvolvimentista, onde se buscará a progressão e melhora contínua. Se por certa ótica temos o desenvolvimento do indivíduo e a alteração de seu modus operandi, por consequente o Estado também o acompanha com diversas intenções.

É neste ponto de abordagem final que os autores destacam ao leitor, o surgimento de um novo protagonista na sociedade em rede, e ao seu futuro (in)certo pelos contornos traçados então pela máquina pública, por vezes consoante ao indivíduo social, e por vezes díspar deste último.

Com este novo protagonista, o vínculo entre representante e representado através do denominado “Governo Eletrônico”, adquire novas noções de construção e exercício da própria democracia. Percebe-se que ocorre uma alteração do autoritarismo governamental para a prestação positiva de serviços ao indivíduo, além do já mencionado espaço de exercício da democracia pública coletiva.

Mesmo diante de premissas, objetivos e funções pré-internet, os autores reconhecem que há a presença de fragmentos que podem ocasionar a ruptura ou não concretização destes primeiros, conforme discorrem acerca da exclusão digital, conceituada como ausência de capacidade técnica, social, cultural, intelectual e econômica de acesso às novas tecnologias.

Os autores afirmam ainda que o governo eletrônico transparente, clamado pelos indivíduos partícipes das comunidades digitais, poderia gerar um Estado planetário, ressaltando que o ideal “global” não representa a unificação singular do conceito proposto, ao invés disso caberá ao Estado assegurar a pluralidade de conceitos no horizonte da sociedade em rede.

A transparência e a participação pública em escala global são citadas pelos autores, enquanto mecanismos que neste viés de participações entre o setor público e o privado, evidenciam a privacidade, pois esta pode tornar-se espaço de vigilância pelo Estado, inclusive com a presença de violações a direitos e preceitos fundamentalmente tutelados pela ordem constitucional; o que pode apresentar potencial desafio a aplicação da ciberdemocracia proposta pelos autores.

Desta forma percebemos que o estado deve estar condicionado pela nova roupagem proporcionada pelas novas tecnologias da informação (NTICs), enquanto tutelador e amplificador dos direitos e garantias constitucionais sejam eles utilizadores ou não dos meios digitais.

Ao término da obra os autores destacam ainda que o indivíduo antes “clássico” e agora digital, esta inserido em um novo mundo, seja presente ou futuro, portando consigo uma nova identidade, caracterizada pela potencialidade de intelecto, tanto singular quanto pluralizado pela inteligência coletiva arquitetada neste espaço.

LEMOS André. LÉVY, Pierre. O futuro da internet: em direção a uma ciberdemocracia planetária. São Paulo: Paulus, 2010.

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