João Pedro Seefeldt Pessoa

jpseefeldt@gmail.com

 

Na noite desta quarta-feira, 14 de março de 2018, Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL, e Anderson Pedro Gomes, seu motorista, foram assassinados quando voltavam de um evento na zona norte da cidade, onde discutiam sobre a juventude negra. O carro em que estavam foi alvejado por, pelo menos, treze tiros, sendo que, destes, quatro atingiram a cabeça de Marielle. A principal linha de investigação da polícia reside em execução, já que nenhum pertence teria sido roubado, os tiros teriam sido disparados contra a janela com vidros escuros exatamente onde estava Marielle e as imagens de vigilância mostram um carro perseguindo o veículo da vereadora.

Marielle Franco, mulher, negra, nascida e criada no Complexo da Maré, mãe jovem e defensora dos direitos humanos, foi a quinta parlamentar mais votada nas eleições de dois anos atrás da cidade do Rio de Janeiro, com mais de 46 (quarenta e seis) mil votos, tornando-se representante política de um sem número de cariocas. Dentre as bandeiras que defendia, exigia o fim da intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro, o fim da guerra às drogas que só acontece e vitimiza a negritude das periferias, o fim do racismo estrutural, o fim do machismo institucional, questionando, desde a época do mestrado, a redução da favela em três letras – UPP.

Desde o dia 28 de fevereiro de 2018, Marielle foi escolhida relatora de uma Comissão na Câmara de Vereadores para acompanhar e fiscalizar a intervenção federal – decretada por um Presidente da República, envolto em diversas polêmicas, numa tentativa de mudar a extrema impopularidade a partir de discursos favoráveis à segurança pública, cuja medida, no entanto, para além de militar, é direcionada somente para a camada pobre e negra fluminense, sem o devido respeito aos direitos e garantias fundamentais constitucionais de todo cidadão. Ainda, em 10 de março de 2018, a vereadora havia denunciado episódios de violência da Polícia Militar no bairro de Acari, na zona norte da cidade, o que contribui para elucidar a motivação do crime cometido contra Marielle.

A própria Marielle Franco se utilizava das redes sociais para divulgar o trabalho como vereadora a seus eleitores e acompanhantes, bem como para denunciar os episódios de abusos e violências que relatava. No Twitter, ainda em 13 de março, Marielle publicou “Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”; e, no dia 10 de março, tuitou “O que está acontecendo agora em Acari é um absurdo! E acontece desde sempre! O 41° batalhão da PM é conhecido como Batalhão da morte. CHEGA de esculachar a população! CHEGA de matarem nossos jovens!”.

A notícia do assassinato de Marielle e Anderson irrompeu nos principais noticiários tradicionais e alternativos, mas foi nas redes sociais que o fato criminoso gerou uma onda de consternação e indignação em todo o país e na comunidade internacional. A Web foi inundada por diversas reações à morte de Marielle, desde manifestações de carinho, dor, revolta, empatia e cobrança, o que, mais uma vez, retoma o poder das tecnologias de informação e comunicação, em especial da internet, de aproximar redes de indignação e esperança.

A hashtag #MariellePresente foi um dos assuntos mais interagidos nas redes sociais, como Facebook, Twitter e Instagram, nesses últimos dois dias. Em uma análise simplificada e preliminar realizada por meio do aplicativo KeyHole da hashtag #MariellePresente, analisou-se, durante a quinta-feira, 15 de março, e a sexta-feira, 16 de março, nas redes sociais, um conjunto de 5.015 (cinco mil e quinze) postagens sobre a hashtag, atingindo mais de 29 (vinte e nove) milhões de usuários e gerando mais de 43 (quarenta e três) milhões de impressões.

Dos domínios onde foram mais utilizadas a hashtag, observa-se que a rede social Twitter ficou em disparado primeiro lugar, sendo seguida pelo Facebook e pelo portal de notícias do Grupo Globo. As publicações partiram, primordialmente, do Brasil, mas é possível ver que vários países interagiram com a hashtag, conforme figura 1.

Figura 1
#MariellePresente Top sites e Location

Interessante notar algumas expressões relacionadas com a procura que mais se aproximam ou foram utilizadas junto com a tag escolhida, que, pelo significado, representam o momento e o sentimento envolto com a morte de Marielle e Anderson, conforme figura 2. Dentre elas: “justiçaparamarielle”, “nenhumaamenos”, “blacklivesmatter” (vidas negras importam), “nãofoiassalto”, “luto”, “paz”, “mulher”, “sayhername” (diga o nome dela), “somostodosmarielle”, “mariellevive”, “direitoshumanos”, “policeviolence” (violência policial), “policebrutality” (brutalidade policial).

Figura 2
#MariellePresente Related Topics

Ainda, sobre a origem das publicações, é possível verificar que a grande maioria partiu de dispositivos móveis, caso somadas as porcentagens de “Android”, “iPhone” e “Twitter Lite” (aplicativo), enquanto as interações partidas de “desktop/web”, isto é, computadores, e mais a categoria “outras”, resultam em apenas 25,87% (vinte e cinco vírgula oitenta e sete por cento). Por outro lado, nota-se que menos de 30% (trinta por cento) das postagens são originais, restando mais de 70% (setenta por cento) para réplicas e retuítes, o que demonstra grande interação na rede, conforme figura 3.

Figura 3
#MariellePresente Top Sources e Share of Posts

Por fim, percebe-se que é rastreável, pelas expressões empregadas nas publicações, o sentimento que o usuário pode estar sentindo naquele momento. Nas postagens monitoradas, contabiliza-se que, pelo menos, 22% (vinte e dois por cento) manifestaram sentimentos negativos, 2,9% (dois vírgula nove) mostraram sentimentos positivos e a grande maioria de 75% (setenta e cinco por cento) ficou neutro. E, ainda, vê-se que, numa análise das informações cedidas durante o cadastro do perfil utilizado, dos usuários que o usaram a hashtag #MariellePresente, 53,1% (cinquenta e três vírgula um) eram mulheres e 46,9% (quarenta e seis vírgula nove) eram homens, conforme figura 4.

Figura 4
#MariellePresente Sentiment e Demographics

Por meio das redes socais, foi possível acompanhar a reação da comunidade internacional. A morte foi noticiada em veículos importantes como The New York Times (EUA), Washington Post (EUA), The Guardian (Inglaterra), El País (Espanha) e Le Monde (França). A Organização das Nações Unidas, a Anistia Internacional e Human Rights Watch exigiram respostas ao crime. Um vídeo da sessão desta quinta-feira do Parlamento Europeu viralizou nas redes, onde o porta-voz do partido espanhol Podemos, Miguel Úrban, juntamente com outros parlamentares segurando cartazes, condenou o assassinato da ativista, requerendo, ainda, uma investigação independente e internacional, sem prejuízo da suspensão de negociações com o Mercosul.

Ainda, nas redes sociais oficiais, os pré-candidatos presidenciáveis nas eleições de 2018 manifestaram o pesar à família, amigos e apoiadores, além de cobrarem uma investigação rápida e efetiva acerca do crime que assolou o país. Das treze opções possíveis de voto apuradas, somente o polêmico candidato Jair Bolsonaro, conhecido pelos discursos críticos aos direitos humanos e pró-armamento, não se manifestou ou lamentou a morte, pelo menos, até o início da tarde de 16 de março. Marcelo Freixo, deputado estadual que disputou a Prefeitura do Rio de Janeiro em 2016 e irmão de “tantas lutas” de Marielle, usou do Facebook para homenagear a vereadora e cobrar respostas, cuja publicação foi reagida por mais de 100 (cem) mil usuários e compartilhada por mais de 16 (dezesseis) mil.

A internet, no entanto, também foi palco para inúmeros discursos de ódio e mensagens agressivas por parte de usuários, especialmente por aqueles que não concordam com as posições políticas da vereadora, o que mostra o lado perverso das redes sociais. Sob o manto do discurso “bandido bom é bandido morto”, lema crítico à defesa dos direitos humanos, “cidadãos de bem” também se indignaram com a atenção direcionada ao caso, vociferando palavras de ódio contra a própria Marielle, contra os ativistas de direitos humanos, contra posicionamentos de esquerda, contra a luta das mulheres e dos negros, dentre outras pautas.

Porém, no espírito das Jornadas de Junho de 2013, as pessoas tomaram as ruas, tomaram as praças, em atos de protestos convocados em várias cidades brasileiras. Na rede social Facebook, usuários criaram eventos para cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Brasília, SalvadorCuritiba e Florianópolis, que, embora não sejam oficiais estimativas de público, servem para difundir mensagens de apoio, deliberar sobre estratégias e objetivos e informar aos manifestantes os locais e horários de manifestação. O resultado: milhares de pessoas indignadas nas ruas protestando contra a morte de Marielle, exigindo respostas e direitos e prometendo não se calarem.

Interessante notar também que tais manifestações, à esteira das demais ocorridas ao longo dos últimos anos, foram transmitidas ao vivo nas redes sociais por meio de streaming, especialmente Facebook, Twitter e Instagram, graças a usuários presentes nos atos com celulares e câmeras em punho. Esse tipo de atitude em manifestação permite com que usuários online, que, por qualquer motivo não estejam presentes no ato, acompanhem o protesto, comentem e repliquem as informações; por outro lado, a transmissão dessas manifestações também permite a vigilância do ato, servindo como escudo em casos de violência e truculência policial.

De todo modo, mais uma vez, fomos surpreendidos pelo poder das redes, diante de uma indignação coletiva que a morte de Marielle Franco e Anderson Gomes representam. A horizontalização da comunicação em grande escala e “as redes sociais digitais baseadas na internet e nas plataformas sem fio são ferramentas decisivas para mobilizar, organizar, deliberar, coordenar e decidir”, já que “criam condições para uma forma de prática comum e permitem a um movimento sem liderança sobreviver, deliberar, coordenar e expandir-se” (CASTELLS, 2017, p. 199).

E depois do grito de indignação manifestado nos grandes protestos por uma sociedade melhor, vem o tempo de reflexão, vigilância, articulação e ação para uma mudança social. Assim, se a construção de projetos alternativos às formas dominantes depende necessariamente de mais de uma pessoa, as redes sociais, em especial as digitais, tornaram-se componentes indispensáveis à conexão entre usuários, ao compartilhamento de ideais, à profusão do sentimento de companheirismo e à soma de esperanças.

E, assim, seguimos, indignados, vigilantes, com #MariellePresente.

 


A RAIVA ganha as ruas em todo país: centenas de milhares gritam “Marielle, presente!”. Disponível em: <http://www.esquerdadiario.com.br/A-raiva-ganha-as-ruas-em-todo-pais-centenas-de-milhares-gritam-Marielle-presente>. Acesso em: 16 mar. 2018.

ANISTIA INTERNACIONAL. Autoridades devem investigar o assassinato da defensora de direitos humanos Marielle Franco. Disponível em: <https://anistia.org.br/noticias/autoridades-devem-investigar-o-assassinato-da-defensora-de-direitos-humanos-marielle-franco/>. Acesso em: 16 mar. 2018.

ARROYO, Daniel; CRUZ, Maria Teresa. Ameaças aterrorizam moradores e ativistas que denunciam violência policial em Acari. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/15/politica/1521116550_982421.html>. Acesso em: 16 mar. 2018.

ASSASSINATO de Marielle Franco: o que se sabe sobre o crime. Disponível em: <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/assassinato-da-vereadora-marielle-o-que-se-sabe-sobre-o-crime.ghtml>. Acesso em: 16 mar. 2018.

BETIM, Felipe. “Mais uma vez o povo contra o povo”: as vozes das favelas na primeira semana da intervenção no Rio. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/23/politica/1519421060_002763.html>. Acesso em: 16 mar. 2018.

CARAZZAI, Estelita Hass. ONU pede investigação “minunciosa e transparente” de morte de Marielle. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/03/onu-pede-investigacao-minuciosa-e-transparente-de-morte-de-marielle.shtml>. Acesso em: 16 mar. 2018.

CASTELLS, Manuel. Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2017, p. 199.

DE TREZE pré-candidatos, só Bolsonaro ignorou a morte de Marielle. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/blog/maquiavel/de-treze-pre-candidatos-so-bolsonaro-ignorou-morte-de-marielle/>. Acesso em: 16 mar. 2018.

FRANCO, Marielle. Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe? Rio de Janeiro, 13 mar. 2018. Disponível em: <https://twitter.com/mariellefranco/status/973568966403731456>. Acesso em: 16 mar. 2018.

FRANCO, Marielle. O que está acontecendo agora em Acari é um absurdo! E acontece desde sempre! O 41° batalhão da PM é conhecido como Batalhão da morte. CHEGA de esculachar a população! CHEGA de matarem nossos jovens! Rio de Janeiro, 10 mar. 2018. Disponível em: <https://twitter.com/mariellefranco/status/972587390131896320>. Acesso em: 16 mar. 2018.

FREIXO, Marcelo. Minha irmã… Disponível em: <https://www.facebook.com/MarceloFreixoPsol/photos/a.397084743665121.99337.128416167198648/2068527509854161>. Acesso em: 16 mar. 2018.

GATINOIS, Claire. L’assassinat à Rio de Marielle Franco, élue locale et militante contre les violences policières, émeut le Brésil. Disponível em: <http://www.lemonde.fr/ameriques/article/2018/03/16/l-assassinat-a-rio-d-une-militante-denoncant-les-violences-policieres-emeut-le-bresil_5271895_3222.html>. Acesso em: 16 mar. 2018.

GUIMARÃES, Arthur; SOARES, Paulo Renato. Imagens de câmera mostram Marielle Franco deixando evento antes do crime e outro carro saindo atrás logo depois. Disponível em: <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/imagens-de-camera-de-seguranca-mostram-marielle-franco-saindo-de-evento-antes-do-crime.ghtml>. Acesso em: 16 mar. 2018.

HUMAN RIGHTS WATCH. Brazil: Assassination of Rights Defender, Driver. Disponível em: <https://www.hrw.org/news/2018/03/15/brazil-assassination-rights-defender-driver>. Acesso em: 16 mar. 2018.

LONDOÑO, Ernesto. Killing of Rio de Janeiro Councilwoman Critical of Police Rattles Brazil. Disponível em: <https://www.nytimes.com/2018/03/15/world/americas/killing-of-rio-de-janeiro-councilwoman-critical-of-police-rattles-brazil.html>. Acesso em: 16 mar. 2018.

MANIFESTANTES protestam pelo país contra a morte de Marielle Franco. Disponível em: <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/manifestantes-protestam-pelo-pais-contra-a-morte-de-marielle-franco.ghtml>. Acesso em: 16 mar. 2018.

MARREIRO, Flávia. Conmoción em Brasil por el asesinato de Marielle Franco, concejal y activista de Río. Disponível em: <https://elpais.com/internacional/2018/03/15/actualidad/1521080376_531337.html>. Acesso em: 16 mar. 2018.

NEGRA da Maré e socióloga, Marielle foi a 5ª vereadora mais votada do Rio. Disponível em: <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/negra-da-mare-e-sociologa-marielle-foi-a-5-vereadora-mais-votada-do-rio.ghtml>. Acesso em: 16 mar. 2018.

ODILLA, Fernanda. Em posts e projetos de lei: pelo que lutava Marielle Franco, vereadora assassinada no Rio. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/brasil-43398816>. Acesso em: 16 mar. 2018.

PARTIDO espanhol condena na Comissão Europeia morte de Marielle. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/mundo/partido-espanhol-condena-na-comissao-europeia-morte-de-marielle/>. Acesso em: 16 mar. 2018.

PHILLIPS, Dom. Protests held across Brazil after Rio councillor shot dead. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2018/mar/15/marielle-franco-shot-dead-targeted-killing-rio. Acesso em 16 mar. 2018.

QUEM é Marielle. Disponível em: <https://www.mariellefranco.com.br/quem-e-marielle-franco-vereadora>. Acesso em: 16 mar. 2018.

SAKAMOTO, Leonardo. “Tava chorando a defensora de bandido”: o que nos diferencia das bestas? Disponível em: <https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2018/03/16/tava-chorando-a-defensora-de-bandido-o-que-nos-diferencia-das-bestas/>. Acesso em: 16 mar. 2018.

THE ASSOCIATED PRESS. City council member, driver shot to death in downtown Rio. Disponível em: <https://www.washingtonpost.com/world/the_americas/city-council-member-driver-shot-to-death-in-downtown-rio/2018/03/14/57478034-27fa-11e8-a227-fd2b009466bc_story.html>. Acesso em: 16 mar. 2018.

VEREADORA Marielle Franco fiscalizava intervenção federal no RJ. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/brasil/vereadora-marielle-franco-fiscalizava-intervencao-federal-no-rj/>. Acesso em: 16 mar. 2018.

 

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