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Fernanda dos Santos Rodrigues Silva

fernanda_1849@hotmail.com

Gabriela Rousani Pinto

gabrielarousanip@gmail.com

Em pleno mês do aniversário da abolição da escravatura no Brasil, vai ao ar no horário nobre da rede Globo uma novela ambientada no estado da Bahia. Até aí, tudo bem, salvo o fato de que a Bahia é o segundo estado com mais pessoas negras no país (76,3%, conforme o Censo 2010) e o elenco da novela possui apenas uma pessoa negra no núcleo principal (que, vale destacar, aparentemente será um dos vilões da novela. Coincidência?).
Não é de hoje que o negro não possui representatividade nos espaços da mídia tradicional. Lázaro Ramos e Taís Araújo, um dos casais negros mais reconhecidos no Brasil, atualmente, são um dos poucos a ter um espaço de destaque na Rede Globo, com uma série que já conta com 3 temporadas e é sucesso de audiência – ainda que, mesmo trazendo uma família de negros bem-sucedidos, continua a pecar ao construir os personagens de forma caricata e que mais serve para diversão, do que para reflexão sobre o papel do negro no país.

Críticas a parte, a série ainda é uma exceção a ser mencionada. Isso porque são inúmeros os casos de atores e atrizes negros que, apesar de bem qualificados, encontram-se sem emprego atualmente (Neusa Borges, recentemente, fez um apelo por mais papéis para atores e atrizes negros). A maioria só é contratada quando surgem novelas sobre o período imperial, em que figurantes negros e alguns atores e atrizes para papéis secundários são requisitados para atuar como escravos (e destaca-se aqui o gosto por esse tipo de produção, que busca retratar a escravidão, enquanto que pouco ou nada se vê sobre as tragédias do holocausto nas novelas das 18h. Novamente, o sofrimento negro usado como moeda de troca.).

A desculpa principal para não serem colocados como personagens principais, porém, é a de que “não se encaixariam no perfil”, o que nos faz questionar não apenas o personagem em si, mas toda uma sociedade que ainda reluta em aceitar a alocação de pessoas negras em posições de poder. Aliás, um caso recente e muito emblemático de uma protagonista negra na emissora foi o papel de Taís Araújo (novamente) como uma das “Helenas” do autor Manoel Carlos, que é conhecido pelas personagens com esse nome que sempre representaram o papel de mulheres fortes e decididas.

O resultado? Taís Araújo interpretou uma das Helenas mais submissas e vulneráveis da história do autor, incluindo cenas em que se coloca de joelhos diante de uma das vilãs da telenovela – veja-se: uma heroína (a princípio) se subjugando a uma vilã? No mínimo, curioso.

Viver a Vida_Helena recebe um tapa em Tereza_TV Globo

Voltando à novela, que está para estrear, porém, intitulada “O Segundo Sol”, o barulho das redes sociais foi imenso diante da escancarada falta de representatividade de pessoas negras em uma teledramaturgia ambientada na Bahia. Nesse sentido, youtubers e o público em geral alvoroçaram a internet com críticas à novela. Veja-se alguns tweets:

A repercussão negativa foi tanta, que o Ministério Público do Trabalho, através da Coordenadoria Nacional de Promoção de Igualdade de Oportunidade e Eliminação da Discriminação no Trabalho (Coordigualdade), emitiu notificação à Rede Globo com 14 recomendações, dentre as quais: realizar um levantamento dos trabalhadores que prestam serviço à empresa, empregados ou não, “com recorte de raça/cor e gênero”, bem como “sobre a representação das pessoas negras e o número de artistas negros e negras que aparecem em telenovelas, séries, propagandas, programas de entretenimento, entre outros produtos”; proporcionar ações de conscientização sobre o racismo na sociedade e “contemplar a diversidade racial nas campanhas publicitárias da empresa e em todas as produções artísticas e jornalísticas realizadas, priorizando a participação de negros e negras no planejamento/criação e desenvolvimento das campanhas e produções”.

No ponto, destaca-se a menção para que tais ações sejam promovidas, dentro da empresa, por pessoas negras, visando evitar incorrer em erro grosseiro e discriminatório por uma produção equivocada pelo ponto de vista de pessoas brancas. O documento deixa expresso, ainda, que, caso descumprida a recomendação, a empresa poderá responder por inobservância de norma de ordem pública, cabendo ao MPT, inclusive, firmar termo de compromisso de ajustamento de conduta (TAC) e até mesmo propor ação judicial, objetivando a “defesa da ordem jurídica e de interesses sociais e individuais indisponíveis”.

Com efeito, uma crítica como essa provavelmente nunca seria feita pelas mídias tradicionais, uma vez que a própria Globo, como tal, não colocaria em xeque uma produção de tamanha magnitude, já que as novelas das 20h estão entre as mais assistidas da emissora. Além disso, as mídias tradicionais têm, por costume, a característica de retratar a ideologia dominante, branca e elitista, mesmo em produções que visam a retratar diferentes aspectos histórico-culturais, tornando homogêneo, em regra, o elenco das obras cinematográficas.

Contudo, apesar da sociedade brasileira ser caracteristicamente racista, expressa ou implicitamente, percebe-se que, a partir da utilização e democratização das novas tecnologias de informação e comunicação, as minorias encontram meios de reivindicar suas demandas, a partir da visibilidade de suas lutas e da possibilidade de mobilização online, a partir do ciberativismo.

Segundo David de Ugarte, o ciberativista, nesse sentido, é justamente “alguém que utiliza Internet, e, sobretudo, a blogosfera, para difundir um discurso e colocar à disposição pública ferramentas que devolvam às pessoas o poder e a visibilidade que hoje são monopolizadas pelas instituições”. 

Assim, o ciberativismo pode ser efêmero ou duradouro, além de ser exercido por qualquer pessoa que se mobilize por uma causa, seja pela auto-identificação com os ideais e desafios enfrentados, seja pela comoção.  Cabe ressaltar que o ciberativismo possui maior ou menor força de modificação social, proporcionalmente à quantidade e qualidade de adesão.

Esse instrumento de reivindicação, inicialmente utilizado em face do Poder Público, principalmente o Legislativo, hoje assume uma nova face, a partir do uso contra pessoas físicas e jurídicas que, de alguma forma, violam os direitos de um indivíduo ou minoria. Nesse sentido, o ciberativismo, mesmo que efêmero e desvinculado, diretamente, dos movimentos e organizações sociais, assume uma posição de concretização de causas pontuais, como, por exemplo, para garantir a representatividade negra em uma novela que se ambienta em um estado majoritariamente negro.

Apesar de muitas críticas quanto à efemeridade e liquidez nas relações mantidas entre ciberativistas e as causas que promovem, fato é que seu poder de influência continua muito forte e ainda tem gerado bons resultados no “mundo real”. Quanto aos efeitos futuros que essa cobrança do Ministério Público do Trabalho pode gerar sobre as produções da Rede Globo, somente se pode esperar, literalmente, o desenrolar dos próximos episódios.

REFERÊNCIAS:

UGARTE, David. O poder das redes. Porto Alegre: PUCRS, 2008.

MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO. Notificação Recomendatória/DIP/PRT1ª/Nº 163.181/2018. Disponível em: <http://portal.mpt.mp.br/wps/wcm/connect/portal_mpt/5d9ff32c-6b9c-4dc3-b6df-c92399d7cfcd/NR+TV+Globo+novela+Segundo+Sol+FINAL+c+adequa%C3%A7%C3%B5es+e+bras%C3%A3o.pdf?MOD=AJPERES&CVID=mdhfh2z&gt;. Acesso em 25 mai. 2018.

JUSTIFICANDO. Por conta de “Segundo Sol”, MPT recomenda à Globo a devida representação racial em novelas. 14 de maio de 2018. Disponível em: <http://justificando.cartacapital.com.br/2018/05/14/por-conta-de-segundo-sol-mpt-recomenda-a-globo-a-devida-representacao-racial-em-novelas/&gt;. Acesso em 25 mai. 2018.

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