escrito pelo cepediano Rodrigo Aguiar da Silva, advogado e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Maria

No último século, diversos dados acentuam uma elevada expansão urbana mundial. Há cem anos, 90% da população mundial vivia em zonas rurais, sendo que atualmente mais da metade vive em cidades. Além disso, elevou-se sobremaneira o número de grandes concentrações humanas nas últimas décadas: em 1950, apenas 83 cidades tinham mais de 1 milhão de habitantes no mundo, número que foi elevado a 468 em 2007 (LEITE, 2012). Em termos de metrópoles com mais de 10 milhões de habitantes, também chamadas de megacidades, havia apenas uma em 1950, enquanto na virada do novo milênio já existiam 24, sendo 19 destas localizadas em países em desenvolvimento e apenas cinco em países mais ricos (MORENO, 2001).

Esse predomínio urbano nos países em desenvolvimento tende a se acentuar ainda mais nas próximas duas décadas, onde se projeta a concentração de 80% da população urbana do planeta nesses países (LEITE, 2012). Ao mesmo tempo, ocorreu um processo de favelização urbana progressiva: em 2012, 31,6% (quase 1 bilhão de pessoas) da população mundial vivia em comunidades periféricas (LEITE, 2012). Em âmbito nacional, o Brasil acompanhou o intenso processo de urbanização ocorrido nos países em desenvolvimento: “em 1940, a população urbana era de 26,3% do total. Em 2000 ela é de 81,2%” (MARICATO, 2001, p. 16).

Paralelamente a essa expansão urbana das últimas décadas, Castells (2003) considera que o surgimento da Internet ocasionou uma redefinição de distâncias, tendo o ciberespaço a sua própria geografia, a qual, muitas vezes, é de exclusão, haja vista a distribuição desigual de infraestrutura tecnológica, havendo uma fragmentação geográfica informacional onde se excluem segmentos da sociedade, criando enormes diferenças quanto às estruturas necessárias para se conectar.

A interferência do espaço virtual no espaço físico se acentuou com a utilização crescente da Internet das Coisas na última década. Vivemos em um mundo onde objetos e pessoas, assim como dados e ambientes virtuais, interagem uns com os outros no espaço e no tempo (MAGRANI, 2018). Diante da aplicação da Internet das Coisas para melhorar a infraestrutura das cidades, criou-se o termo “cidades inteligentes” para designar o “lugar onde as funções básicas da cidade […] são otimizadas por novas formas de tecnologia da informação e comunicação” (LEITE, 2012, p. 174). Contudo, como bem salientado por Rosado e Díaz (2017), afirmar que uma cidade é inteligente tão somente pela aplicação de novas tecnologias é um reducionismo, pois deve ser considerada inteligente se as condições de vida de seus habitantes são ótimas.

Considerando que a maioria das ditas cidades inteligentes atualmente está estabelecida em megacidades, locais de ampla segregação urbana, é importante destacar a inacessibilidade dos habitantes a essas aplicações tecnológicas, bem como o desvirtuamento da tecnologia em prol do consumismo. Segundo Castells (1999), trata-se de uma nova forma urbana que está conectada a redes globais, porém desconectada da população local. O mesmo autor ainda salienta que essas “redes fragmentadoras acentuam as tendências globais à segregação socioespacial em cidades do mundo todo […].”, denominando tal contexto como “divisão digital global” (CASTELLS, 2003).

Ao verificar estruturas urbanas das quais não tem acesso, principalmente através da mídia, o excluído cria um desejo de consumo por bens inalcançáveis, diante do acentuado deslumbramento tecnológico na “sociedade do espetáculo” (DUPAS, 2001). A globalização interfere nessas aspirações de consumo em países subdesenvolvidos, fazendo com que adotem como padrão as sociedades desenvolvidas (DUPAS, 1999).

Impende destacar que a maioria dos dispositivos conectados (63% – 5,2 bilhões de unidades) em termos de Internet das Coisas são voltados ao consumo (ABRANET, 2017). Nesse sentido, Magrani (2018) diferencia Internet das Coisas úteis e inúteis, considerando que muitos objetos atendem a necessidade em sua forma analógica, sendo desnecessário equipá-los com uma tecnologia que só encarecerá seu valor.

Recentemente, foi publicada uma matéria interessante sobre o tema no site “Caos Planejado”, o qual analisa questões urbanísticas relevantes de acordo com a realidade social brasileira. No texto reflexivo de Guilherme Louzada, intitulado “Todas as cidades precisam ser inteligentes?”, o autor considera que algumas soluções tidas como “inteligentes” às vezes se mostram socialmente irrelevantes. Por exemplo, não adianta disponibilizar telas e conexões para carregar celular nas paradas de ônibus, enquanto o sistema de transporte público é decrépito e ineficiente.

É imprescindível aliar a tecnologia ao urbanismo, contudo deveríamos refletir mais profundamente sobre a função social tecnológica e urbana na aplicação da Internet das Coisas, sob pena de utilizar recursos públicos em prol do consumismo e em detrimento de relevantes problemas sociais urbanos.

REFERÊNCIAS

ABRANET. Consumo impulsiona adoção de internet das coisas. Disponível em: http://www.abranet.org.br/Noticias/Consumo-impulsiona-adocao-de-internet-das-coisas-1359.html?UserActiveTemplate=site#.XY0ackZKjIW. Acesso em: 05 set. 2019.

CAOS PLANEJADO. Todas as cidades precisam ser inteligentes?. Disponível em: https://caosplanejado.com/todas-as-cidades-precisam-ser-inteligentes/. Acesso em: 16 mar. 2020.

CASTELLS, Manuel. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

DUPAS, Gilberto. Economia global e exclusão social: pobreza, emprego, estado e o futuro do capitalismo. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

DUPAS, Gilberto. Ética e poder na sociedade da informação. De como a autonomia das novas tecnologias obriga a rever o mito do progresso. São Paulo: Editora UNESP, 2001.

LEITE, Carlos. Cidades sustentáveis, cidades inteligentes: desenvolvimento sustentável num planeta urbano. Porto Alegre: Bookman, 2012.

MAGRANI, Eduardo. A internet das coisas. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2018.

MARICATO, Ermínia. Brasil, cidades: alternativas para a crise urbana. Petrópolis: Vozes, 2001.

MORENO, Júlio. O futuro das cidades. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2001.

ROSADO, Javier; DÍAZ, Raimundo. América Latina ante el reto de las smart cities. Disponível em: https://www.revista-uno.com/29-revista/america-latina-ante-reto-las-smart-cities/. Acesso em: 12 ago. 2019.

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