Fonte: Daniel Leal-Olivas/AFP

Fonte da imagem destacada:  Daniel Leal-Olivas/AFP (https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/06/02/blackout-tuesday-entenda-apagao-no-instagram-e-como-participar.htm)

Por: Fernanda dos Santos Rodrigues Silva

A morte violenta de George Floyd, um homem negro de 46 anos, por um policial nos Estados Unidos no último dia 25 gerou uma onda de manifestações mundo afora. Iniciadas nos Estados Unidos, em especial, pelo Movimento #BlackLivesMatter (#VidasNegrasImportam), as mobilizações encontraram eco em países como Brasil e França, o que demonstra que Estados de diferentes níveis de desenvolvimento foram atingidos pela intensidade do caso.

George Floyd foi asfixiado até a morte pelo policial Chauvin, que colocou o joelho sobre seu pescoço após ser chamado em uma ocorrência na loja Cup Foods, pois um funcionário achou que Floyd havia utilizado uma nota falsa de U$ 20,00 para comprar um maço de cigarro. George Floyd ainda avisou que não estava conseguindo respirar com a abordagem policial, mas Chauvin não deu ouvidos, ocasionando a morte da vítima.

No Brasil, o episódio violento encontrou eco nas vozes do Movimento Negro, que lamentavam a morte de diversos jovens negros pela polícia naquela mesma semana, em especial, a do menino João Pedro, que era um jovem de 14 anos, morador do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ), que foi baleado nas costas dentro de casa, durante uma operação policial na região.

Nos Estados Unidos, mesmo diante da pandemia do novo coronavírus, os protestos tomaram as ruas, inclusive, com a invasão do pátio da Casa Branca, que teve suas luzes apagadas pela primeira vez na história, e levando o presidente Donald Trump a se esconder dentro de um bunker no local. Prédios e lojas foram queimados em diversos estados do país, levando, recentemente, o presidente a cogitar usar o Ato de Insurreição,que é uma lei de 1807, que autoriza a utilização do Exército para conter as manifestações – o que poderia ser ligeiramente equiparado a uma intervenção federal no Brasil.

Tais manifestações, porém, também atingiram sobremaneira as redes sociais. Twitter e Instagram foram as principais ferramentas usadas para levantar o debate sobre o assunto e para cobrar, em especial, atitudes por parte da branquitude frente a situações como estas. Nesse sentido, faz-se interessante verificar como se deu a utilização de duas hashtags: #BlackLivesMatter e a sua tradução em português, #VidasNegrasImportam.

No ponto, destaca-se que em nenhum momento se está a afirmar que o movimento na Internet possa ter mais importância do que as manifestações presenciais nas ruas, que ainda têm acontecido e têm colaborado para abalar as estruturas racistas dos Estados envolvidos. Contudo, considerando a importância da sociedade em rede hoje em dia, não se pode deixar de analisar o impacto desses movimentos também na esfera digital.

Assim, utilizando-se, inicialmente, da ferramenta KeyHole, foi possível verificar um crescimento exponencial no uso da hashtag #BlackLivesMatter a partir do dia 26 de maio, que tem se mantido razoavelmente alta ao longo dos dias:

keyhole__#blacklivesmatter
Fonte: site KeyHole.

Ao total, foram mais de 47 milhões de postagens nos últimos 30 dias, a partir de mais de 43 milhões de usuários, relacionadas, principalmente, com os termos “justiceforgeorgefloyd” (“Justiça para George Floyd”) e GeorgeFloyd.

Anotação 2020-06-04 0939591
Fonte: site KeyHole

Por outro lado, o pico da utilização da #VidasNegrasImportam foi no dia 31 de maio, com significativa queda para o dia 2 de junho:

keyhole__#vidasnegrasimportam
Fonte: site KeyHole.

A explicação mais plausível para o dia de destaque da #VidasNegrasImportam é porque no dia 31 de maio ocorreu a primeira manifestação nas ruas no Brasil, com foco para o Rio de Janeiro, onde as manifestações ocorreram em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo do estado do Rio de Janeiro.

Nesse sentido, foram mais de 2 milhões de postagens, a partir de mais de 2 milhões de usuários, com relação mais direta com a hashtag #BlackLivesMatter.

Anotação 2020-06-04 0940341
Fonte: site KeyHole.

Outro dado que chama a atenção é que na ferramenta Google Trends, foi possível verificar que o nome de George Floyd e informações sobre o caso foram muito mais pesquisados do que sobre o menino João Pedro no Brasil, desde o dia 25 de maio. Veja-se:

Apresentação1

Ainda, é possível analisar os principais assuntos relacionados aos dois nomes no Google, delimitando ao Brasil nos últimos 7 dias. Para João Pedro, o único termo dentre os 5 primeiros relacionados à busca, somente “vidas negras importam” pode ser diretamente ligado com o caso do menino assassinado em uma operação policial no RIo de Janeiro:

Anotação 2020-06-04 124809

No caso de George Floyd, além do número massivo de pesquisa, os primeiros 5 termos apresentam relação direta com o caso, demonstrando o interesse dos usuários da plataforma em saber mais sobre o ocorrido de que trata esta pesquisa:

Anotação 2020-06-04 124853

Por óbvio, isso não significa que o caso do menino João Pedro não tenha recebido atenção. Diversas manifestações acerca do seu assassinato foram percebidas, em especial, novamente, no Twitter e no Instagram. No ponto, tendo em vista que o jovem negro foi, inicialmente, dado como desaparecido, pois, após ser baleado, o corpo de João Pedro foi levado pelos policiais, alegadamente para prestar socorro, deixando a família sem informações sobre o seu paradeiro até o dia seguinte, muitas pessoas se mobilizaram pela internet para tentar localiza-lo.

Depois da descoberta que ele havia falecido, continuou-se a falar sobre o caso e sobre a violência policial dentro das favelas, que estava ficando mais acirrada no Rio de Janeiro, mesmo no meio da pandemia do Covid-19, período este já marcadamente mais vulnerável para a população periférica. Veja-se o engajamento, por exemplo, através da #JoaoPedroPresente na internet:

keyhole__#joaopedropresente
Fonte: site KeyHole.

Por meio do nome de João Pedro também houve manifestações, com pico também no dia da manifestação nas ruas do Brasil, em 31 de maio:

keyhole__joao pedro
Fonte: KeyHole.

Toda esta análise não está descolada, porém, do fato de que em ambos os casos, os manifestantes cobraram atitude tanto por parte dos Estados envolvidos, como também das pessoas brancas que se solidarizaram com a causa.

No tom da famosa frase de Angela Davis, de que “em uma sociedade racista, não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”, diversas postagens, dessa vez, no Instagram, em sua maioria, passaram a apresentar formas para que a população branca se engajasse de maneira ativa no movimento, sem roubar o protagonismo de pessoas negras, mas fazendo a sua parte dentro da luta antirracista.

Nesse sentido, uma das pautas mais levantadas foi a necessidade de que pessoas brancas passassem a valorizar o trabalho e a produção de pessoas negras, seja no que tange à moda, estilo de vida, arte, mercado e em tantos outros nichos. Correntes criadas para serem compartilhadas nos stories, onde as pessoas deveriam marcar amigos para continuar a corrente em inglês, com #blacklivesmatter, foram duramente criticadas, por não proporcionar nenhuma reflexão por parte dos participantes.

Na última terça-feira, o movimento #blackouttuesday (Terça-feira de black out) visava fazer com que as pessoas não postassem nenhum conteúdo de entretenimento no dia, dedicando espaço para a pauta antirracista nas mídias sociais. Todavia, o movimento acabou sendo deturpado, pois milhares de pessoas postaram em seus feeds do Instagram, além de suas fotos normais, uma tela preta, mas sem nenhum conteúdo reflexivo sobre o tema e, ainda por cima, com a hashtag #blacklivesmatter junto, o que fez com que a pesquisa sobre a hashtag retornasse somente diversas telas pretas na busca, esvaziando totalmente o movimento do seu conteúdo primordial.

Em razão disso, muitos influenciadores negros e negras tiveram que chamar a atenção para o fato e para o que a #blackouttuesday realmente tinha a intenção de fazer, que era fomentar o debate atual.

Tais cobranças colaboraram para que o ativismo envolvendo as hashtags #VidasNegrasImportam e #blackLivesMatter não recaísse em uma espécie de ativismo preguiçoso que, nos termos de Morozov, ocorre quando os indivíduos praticam ações de ativismo digital somente para bem-estar próprio, independentemente de ser útil para as causas defendidas (MOROZOV, p. 14).

Nesse sentido, Gabriela Lima (2012, p. 95) considera que “ações de ativismo preguiçoso são válidas para reforçar uma marca institucional, sensibilizar e evidenciar uma problemática, e quando estruturadas de forma produtiva podem oferecer um bom retorno à instituição que a intermedia“. Todavia, essas ações não possuem o condão de “uma contestação intensa ao status quo, fragilizando a possibilidade de uma ação política em prol de uma causa, o que enfraquece seu retorno efetivo“.

No atual contexto, os movimentos antirracistas ao redor do mundo tem alarmado a necessidade de que se vá além do “ativismo de sofá”. A situação comtemporânea exige práxis, exige disposição e comprometimento. O uso de hastags e o compartilhamento de postagens nas redes sociais em momentos como esse, com mensagens de apoio ao movimento antirracista são, sim, importantes e devem ser estimuladas, mas impreterivelmente devem ser utilizados em conjunto com ações efetivas de combate ao racismo.

Obs.: os dados foram coletados no dia 04/06/2020.

Referências bibliográficas:

LIMA, Gabriela Bezerra. Tipos de ativismo digital e ativismo preguiçoso no mapa cultural.Revista GEMINIS, 2012, ano 3, n. 1, p. 71-96. Disponível em: http://www.revistageminis.ufscar.br/index.php/geminis/article/view/99. Acesso em 05 jun. 2020.

MOROZOV, E. Iran: Downside to the “Twitter Revolution.” Academic Search Premier, Norlin Library, University of Colorado. Dissent v. 56, n. 4, p. 10-14., 2009. Disponível em: https://www.evgenymorozov.com/morozov_twitter_dissent.pdf. Acesso em 05 jun. 2019.

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