Por Júlia Schmidt Kronbauer e Luiza Berger von Ende / julia.schmidt.k@gmail.com / luizabergerv@gmail.com

Que a internet transformou a maneira de realizar a maioria das atividades diárias já se sabe. Inclusive, uma das operações que não ficou de fora são transações financeiras – quem não prefere pagar o boleto pelo aplicativo do banco no conforto de casa em vez de se deslocar até o caixa eletrônico? Mas, muito mais que simplesmente disponibilizar funções existentes operadas por bancos e moedas físicas, foram criados sistemas mais complexos de pagamentos e recebimentos com base em tecnologias nascentes e 100% digitais, independentes de instituições tradicionais e que, a cada ano, tornam-se mais populares. Esse nicho se desenvolveu tanto que, além de moedas digitais, outros tipos de trocas são possíveis a partir da mesma tecnologia, que é o caso do NFT.

NFT – sigla para non-fungible token ou token não-fungível – é um tipo de certificado de propriedade e autenticidade criptografado referente a algum determinado bem, que pode ser transferido ou vendido. Eles podem representar tanto bens materiais – como imóveis, veículos e pinturas – quanto bens digitais – como artes digitais, domínios de sites e itens de jogos digitais.

É possível que você tenha visto que o Nyan Cat, meme extremamente popular em 2011, foi vendido em forma de NFT pelo equivalente a cerca de 600.000 dólares. Ou que o fundador do Twitter vendeu o token de seu primeiro tweet por mais de 2,9 milhões de dólares. Ou, ainda, que a artista Grimes vendeu NFTs de peças de arte digital e arrecadou 6 milhões de dólares. Mas o que isso significa?

Nyan Cat, meme de Chris Torres
Ofertas em andamento para a compra do primeiro tweet

Devido a sua natureza não-fungível (ou seja, insubstituível, única), os NFTs possibilitam a criação da escassez de bens digitais, individualizando-os e criando uma diferença entre as cópias e a versão tokenizada, que é registrada como autêntica, original. Os itens mencionados anteriormente ainda podem ser visualizados por todos na internet, podem ser copiados e baixados em qualquer celular. O que foi comprado, então, não foram os arquivos em si, mas o certificado digital de sua propriedade.

Para melhor compreensão, é possível pensar nos NFTs como autógrafos. Se um livro é autografado por seu escritor, é possível fazer cópias dessa versão autografada, mas apenas a primeira foi originalmente assinada pelo autor e, muito provavelmente, terá um valor mais elevado do que suas cópias. Isso também significa que comprar um NFT não é, necessariamente, a mesma coisa que comprar os direitos autorais da obra ou do item em questão. Nesses exemplos mencionados, a compra de um token é motivada pela vontade de apoiar um artista querido e/ou de adquirir um bem digital equivalente a um item de colecionador.

Também há a possibilidade de se comprar um NFT visando um cenário de especulação financeira. Assim como os investimentos feitos em ações da bolsa de valores, é possível investir em um token com o objetivo de revendê-lo no futuro, com a expectativa de que seu valor aumentará com o passar do tempo. É o caso de indivíduos que compram NFTs de artistas pequenos por um valor menor, apostando que eles se tornarão altamente reconhecidos no futuro e, consequentemente, que os tokens referentes às suas obras terão uma maior valorização.

A base da segurança dos NFTs é a tecnologia de blockchain, uma base de dados descentralizada, que possibilita o armazenamento de informações criptografadas. Por meio dessa base de dados, diversas operações financeiras podem ser realizadas de forma transparente e facilmente rastreável. Além disso, esse sistema possui vários mecanismos de validação que tornam praticamente impossível duplicar, alterar, forjar ou adulterar as informações já nele contidas.

Essa tecnologia foi originalmente criada para possibilitar operações envolvendo criptomoedas (como o Bitcoin), mas pode ser aplicada em diversas áreas da vida humana. Na verdade, é provável que, no futuro, esse sistema seja utilizado para atividades bancárias, imobiliárias, de assistência médica e até mesmo na votação em eleições políticas.

Sendo assim, entende-se que, dentro de uma rede de blockchain, um NFT não pode ser destruído ou alterado e, ao mesmo tempo, seu histórico de operações de compra e venda pode ser facilmente rastreado, levando até a pessoa que originou o token. Outro ponto positivo dos NFTs e do blockchain, além da segurança, é a possibilidade de realizar transações sem a interferência de terceiros, como bancos e cartórios. Isso garante maior liberdade entre as partes e maior conexão entre os criadores de conteúdo digital e a sua audiência.

De acordo com especialistas, como Andrew Hinkes, até o momento nós não exploramos completamente as possibilidades que o NFT nos proporciona. Hinkes afirma que um NFT pode, por exemplo, vir a representar áreas de terra, fazendo com que um indivíduo consiga comprovar sua propriedade através de um token criptografado e seguro, substituindo os registros, que dependem dos cartórios.

Os tokens não-fungíveis também podem representar licenças de propriedade intelectual, certidões de nascimento, credenciais acadêmicas, entre outros. Ademais, ao serem relacionados a bens materiais, NFTs podem ser usados como garantia em negócios jurídicos.Obviamente, nem tudo é tão fácil e perfeito. A chegada dessa nova tecnologia, como sempre, traz consigo uma série de problemas a serem resolvidos e levanta diversas questões. No campo dos direitos autorais, há de se observar, principalmente, o furto de artes digitais e a sua tokenização e venda não autorizada. Ademais, chama atenção o impacto ambiental causado pela geração dos tokens e pelo funcionamento das redes de blockchain, pois esses processos demandam uma quantidade gigantesca de energia. Por fim, a falta de regulamentação, fiscalização e preparo geral da legislação brasileira para lidar com os NFTs é notável. Essas questões serão abordadas mais profundamente em um futuro post – e, enquanto isso, já podemos refletir sobre os reflexos do uso dessa tecnologia nas novas dinâmicas da sociedade.

Um comentário em “NFT: o que é um token não fungível?

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