Por Bruna Bastos

O terrorismo é conhecido por ser um fenômeno globalmente disseminado que tomou forma no mundo a partir do 11 de setembro de 2001, ataque perpetuado pela Al-Qaeda no World Trade Center e no Pentágono, ambos localizados nos Estados Unidos. É claro que o terrorismo apresenta diversas nuances e especificidades, mas essa modalidade de terrorismo especificamente é caracterizada pelo cunho ideológico-religioso, ou seja, apresenta uma forte relação com a cultura islâmica e tem raízes profundas que se conectam de forma intrínseca com o atual estado da arte global.

Isso porque a globalização, outro fenômeno multifacetado que impactou de forma direta todos os aspectos da vida em sociedade (especialmente o econômico, mas também o político, o social e o cultural), representou consequências negativas para a cultura, particularmente aquelas consideradas minoritárias, que não atendem aos aspectos hegemônicos ocidentais. Em outras palavras, a globalização exacerbou uma forma de se fazer cultura na mesma medida em que excluiu as demais manifestações culturais, momento no qual diversas comunidades foram segregadas e oprimidas na sua própria constituição, especialmente quando se negaram a ingressar “de cabeça” nas formas hegemônicas.

Dentre todos os motivos que compõem a disseminação do terrorismo ideológico-religioso, o cultural é um dos mais presentes. Para ilustrar, podemos pegar a Letter to America [1], escrita por Osama bin Laden após os atentados de 11 de setembro de 2001, na qual buscava justificar as condutas da Al-Qaeda, explicando o que o levou a ordenar tais ataques. Dentre os motivos, Osama foi bem claro em estabelecer que os Estados Unidos vinham atacando a cultura islâmica de forma contundente, matando pessoas em prol de aspectos econômicos, quando aquela população só queria viver em paz com suas próprias manifestações culturais. Dessa forma, Osama comenta que alguns afiliados islâmicos [2] se revoltaram contra os Estados Unidos, que representa a cultura ocidental hegemônica no mundo globalizado.

Os aspectos culturais desses movimentos terroristas são extremamente profundos e podem ser mais bem visualizados e compreendidos no livro produzido por mim, fruto da minha dissertação de mestrado (lançamento em breve!), e em outras obras, como livros da Judith Butler [3] e do Arjun Appadurai [4] e nos ensinamentos de Boaventura de Sousa Santos [5] sobre a divisão do mundo em linhas abissais, além das reflexões sobre biopolítica de Foucault [6] e necropolítica de Mbembe [7]. Para os fins dessa pequena discussão, o importante é ter em mente a relação entre terrorismo contemporâneo e exclusão cultural, panorama este que pode ser verificado através de muitos exemplos – como a cultura indígena, para tornar mais próximo da realidade brasileira.

Ok… até aí tudo bem. Mas o que isso tem a ver com a internet? Acredito já estar pacificado que essa ferramenta trouxe muitos benefícios para a vida em sociedade, mas que esses aspectos também vieram acompanhados de outros, consideravelmente negativos. Nesse âmbito, podemos citar os riscos à privacidade e a perpetuação de fake news, assuntos muito abordados pelo CEPEDI nas suas pesquisas. Entretanto, outra questão que merece que seja colocada uma lupa para ampliar suas nuances é a perpetuação e a amplificação de processos discriminatórios que já existem na sociedade – mas que ganham novos contornos quando inseridos no ambiente virtual.

Esses novos contornos são ocasionados em razão da horizontalidade da rede, que, segundo Manuel Castells [8], permite que todos os usuários sejam produtores de informação, de comunicação e de conhecimento. É claro que isso trouxe potencialidades para a democratização do conhecimento; entretanto, também acaba abrindo espaço para discursos de todos os tipos, incluindo aqueles que manifestam preconceitos. É comumente dito que a internet deu voz àqueles que se sentem fortes e empoderados atrás de uma tela de computador ou de smartphone, e isso infelizmente é uma verdade quando se fala em humilhar e agredir pessoas ou grupos de indivíduos nas redes sociais e plataformas de conteúdo.

Tais manifestações são aquelas “que expressam mensagens violentas, intolerantes e eivadas de conteúdo preconceituoso” [9], e são denominadas discurso de ódio, que “consiste na manifestação de ideias que incitam à discriminação racial, social ou religiosa em relação a determinados grupos, na maioria das vezes, as minorias” [10]. Diante do cenário globalizado em que vivemos, fica fácil identificar que a cultura islâmica acaba sendo considerada uma minoria, motivo pelo qual seus integrantes também são alvos de discursos odientos, apenas por serem quem são – identificados com uma forma válida de fazer cultura.

A forma errônea e generalista a partir da qual o terrorismo é visualizado pelos Estados e pela mídia (especialmente através da lógica da guerra ao terror) é compartilhada nas plataformas de conteúdo e faz com que sejam levantados preconceitos e processos discriminatórios contra toda a comunidade islâmica, ignorando a imensa quantidade de pessoas que sequer se identificam com os movimentos terroristas. A internet, como lugar propício para a propagação dessas ideias, fomenta e amplifica esses processos discriminatórios, que ganham atenção dos usuários nas redes sociais e que são responsáveis pela criação de estereótipos e de situações de humilhação, de desumanização e de violação de direitos fundamentais.

É importante lembrar que não é à toa que os Estados e a mídia perpetuam visões equivocadas sobre o terrorismo (e mais sobre esse assunto também estará no meu livro). Entretanto, para os fins aos quais esse texto se propõe, o importante é ter em mente que esse tratamento é perpetuado na internet e é capaz de violar direitos humanos e fundamentais na medida em que, além de disseminar preconceitos, coloca inúmeras pessoas em situação de vulnerabilidade apenas pela cultura com a qual se identificam. Esse tratamento, inclusive, retira o direito de resposta dessas pessoas, que sequer têm a chance de indicar se são adeptas ou não do terrorismo, momento no qual o estereótipo criado atua para caracterizar todos os indivíduos muçulmanos como terroristas – e de forma totalmente falha.

Dessa forma, terrorismo tem tudo a ver com internet, e isso porque sequer precisei mencionar a modalidade de ciberterrorismo, que atua justamente através das redes. Terrorismo tem a ver com internet porque suas consequências diretas e indiretas são percebidas no cotidiano do uso do espaço virtual e afetam pessoas que se identificam com a cultura islâmica todos os dias. E, antes que se diga, não é apenas o terrorismo propriamente dito que gera tais efeitos, mas o tratamento conferido a ele é capaz, por si só, de disseminar discursos de ódio e de desumanização, que são diuturnamente endossados e compartilhados pelos usuários da internet.

Agora, me diz uma coisa… esse assunto te interessou? Ficou curioso para ler mais sobre as consequências do terrorismo e do tratamento conferido a ele pelos Estados e pela mídia? Então fica de olho nas redes sociais que em breve tem o lançamento do meu livro, que está cheio de informações sobre esses fenômenos.

NOTAS

[1] A Letter to America pode ser encontrada nesse site: https://www.theguardian.com/world/2002/nov/24/theobserver.

[2] É importante deixar claro aqui que não se pode fazer uma relação simplória entre cultura islâmica e terrorismo, especialmente a ponto de inferir que toda a comunidade islâmica é terrorista ou compactua com essas manifestações. Ao contrário: a parcela que se afilia ao terrorismo é extremamente pequena, e de forma alguma representa a cultura islâmica. Esse é um ponto necessário de se ter em mente toda vez que o termo “terrorismo” ou “islâmico” aparecer.

[3] BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto?; tradução Sérgio Tadeus de Niemeyer Lamarão e Arnaldo Marques da Cunha; revisão de tradução Marina Vargas; revisão técnica Carla Rodrigues. 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. // BUTLER, Judith. Vida precária: os poderes do luto e da violência; tradução Andreas Lieber; revisão técnica Carla Rodrigues. 1. ed. Belo Horizonte: Autência Editora, 2019.

[4] APPADURAI, Arjun. O medo ao pequeno número: ensaio sobre a geografia da raiva. Tradução: Ana Goldberger. – São Paulo: Iluminuras: Itaú Cultural, 2009.

[5] SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (Orgs.). Epistemologias do Sul. São Paulo: Editora Cortez, 2013. p. 23-57.

[6] FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade; tradução Maria Ermantina Galvão. 2. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.

[7] MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte; tradução Renata Santini. 7. ed. São Paulo: N-1 Edições, 2018.

[8] CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede; tradução Roneide Venancio Majer. 17. ed. revista e ampliada. São Paulo: Paz e Terra, 2016.

[9] STROPPA, Tatiana; ROTHENBURG, Walter Claudius. Liberdade de expressão e discurso de ódio: o conflito discursivo nas redes sociais. Revista Eletrônica do Curso de Direito da Universidade Federal de Santa Maria, v. 10, n. 2 / 2015. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/index.php/revistadireito/article/view/19463. Acesso em: 03 abril 2020. p. 455.

[10] MEYER-PFLUG, Samantha Ribeiro. Liberdade de expressão e discurso de ódio. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2009. p. 97.

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