Júlia Schmidt Kronbauer / julia.schmidt.k@gmail.com

Recentemente, com a popularização dos NFTs e a sua crescente utilização por parte de artistas digitais, uma acalorada discussão surgiu entre defensores e críticos dos tokens, principalmente no que diz respeito ao impacto que o seu uso – bem como o uso de outras criptomoedas – causa no nosso já mazelado meio ambiente.

O custo ecológico das operações envolvendo tokens não-fungíveis chama a atenção por ser incrivelmente alto. A média da pegada de carbono de uma única transação é estimada em cerca de 82 kWh, com emissão de quase 48 kgCO2. O cenário piora quando percebemos que um único NFT é, normalmente, envolvido em inúmeras operações: minting (seu processo específico de cunhagem), leilões, cancelamento, vendas e transferências de propriedade. No final das contas, o token médio possui uma pegada de carbono de cerca de 340 kWh e 211 kgCO2 – o equivalente à totalidade do consumo mensal de energia elétrica de uma residência da União Europeia e emissões equivalentes às de um carro movido a gasolina andando por 1000 km ou de um avião voando por 2h. [1]

De acordo com a Ethereum, a blockchain mais relevante quando se discute sobre NFTs, seus processos estão passando por uma série de melhorias que buscam diminuir os impactos ambientais causados pela utilização dos tokens. Sua fase melhorada, chamada de Eth2, permitirá a remoção do poder de computação como um dos mecanismos de segurança, reduzindo, assim, a sua pegada de carbono em aproximadamente 99,98%.

Não é incomum que novas tecnologias sejam aperfeiçoadas ao longo do tempo, evoluindo e se tornando mais eficientes e menos custosas. Esse processo é notável desde a Lei de Moore. O problema é que ninguém sabe quando essa nova fase da Ethereum será implementada e, considerando o estado atual do nosso planeta, nem todos estão dispostos a arriscar sua vida por um possível refinamento no mundo das criptomoedas.

Apesar dessa justificada preocupação acerca do mundo das moedas digitais, pouco se fala sobre os impactos ambientais causados por tecnologias amplamente utilizadas por nós todos os dias. O armazenamento de dados da internet e o seu compartilhamento entre dispositivos diversos implica na construção de data centers, com milhares de servidores, que, em 2019, já consumiam cerca de 2% de toda a energia elétrica mundial. [2]

Segundo a revista Fortune, somente os acessos ao videoclipe da música “Despacito” – que em abril de 2018 contava com 5 bilhões de visualizações – já gastavam tanta energia quanto o consumo anual de energia elétrica de 40 mil residências norte-americanas. Aliás, uma mera pesquisa no Google pela palavra “Despacito” já ativa servidores de cerca de seis a oito data centers ao redor do mundo, todos eles consumindo uma expressiva quantidade de energia.

Além disso, essa concentração de inúmeras máquinas em grandes centrais de dados, ocasionada pelo advento da chamada computação em nuvem, aumentou o gasto de energia não somente para o funcionamento dos servidores, mas também para a refrigeração de dispersão de calor [3]. Esses gastos tendem a aumentar ainda mais com o passar do tempo, já que a criação de dados vem crescendo exponencialmente e o interesse por parte de grandes corporações, e até mesmo por parte do governo, de coletá-los e analisá-los também cresce cada vez mais.

Algumas localidades, como Amsterdã, vem suspendendo a construção de novos data centers em sua área. Sendo considerada parte do maior eixo de dados da Europa, a cidade, em 2019, viu a necessidade de frear abruptamente o seu desenvolvimento, devido às consequências negativas que a presença desses centros produz na vida dos cidadãos, bem como o alto gasto de energia, que já teria um impacto ambiental similar às emissões de CO2. [4]

Hodiernamente, a maioria dessas estruturas de hospedagem de dados está concentrada nos países desenvolvidos, mas é provável que, em um futuro próximo, esses países comecem a se preocupar mais com seu impacto ambiental e evitem a construção de data centers em seu território, assim como ocorre em Amsterdã. Entretanto, isso não parece ser uma boa notícia para nós. 

Observando os efeitos do processo de globalização e a maneira com que se deu a instalação de empresas multinacionais em países subdesenvolvidos, não é absurdo pensar que, em breve, tais centros de dados serão instalados em regiões mais favoráveis a corporações como Google, Amazon e Microsoft. Regiões onde a energia é mais barata, e, principalmente, regiões que ficam longe de sua matriz – para que os impactos ambientais não sejam diretamente sentidos, mas os lucros sejam igualmente obtidos.

Por causa disso, é de extrema importância que estejamos conscientes dos impactos reais que o mundo digital tem sobre o meio ambiente, não apenas os atuais, mas também os que podem vir a aparecer com maior proeminência em países como o Brasil. Só assim poderemos regular essa atividade de forma que o seu exercício não cause prejuízos irremediáveis aos direitos fundamentais previstos pela Constituição Federal, em todas as suas gerações e dimensões. E, de preferência, que o desenvolvimento dessa consciência nos leve a cobrar das autoridades competentes que não permitam que ocorra aqui o que as autoridades competentes dos países beneficiários dos data centers não permitiram que ocorresse lá.

REFERÊNCIAS

[1] AKTEN, Memo. The Unreasonable Ecological Cost of #CryptoArt (Part 1). Medium, 2020. Disponível em: https://memoakten.medium.com/the-unreasonable-ecological-cost-of-cryptoart-2221d3eb2053.

[2] ELEGANT, Naomi Xu. The Internet Cloud Has a Dirty Secret. Fortune, 2019. Disponível em: https://fortune.com/2019/09/18/internet-cloud-server-data-center-energy-consumption-renewable-coal/.

[3] SILVEIRA, Sergio Amadeu da. Sistemas algorítmicos, subordinação e colonialismo de dados. In: AMARAL, Augusto Jobim do; SABARIEGO, Jesús; SALLES Eduardo Baldissera Carvalho (org.). Algoritarismos. 1. ed. São Paulo: Tirant lo Blanch, 2020. p. 158-170.

[4] SILVEIRA, Sergio Amadeu da. Sistemas algorítmicos, subordinação e colonialismo de dados. In: AMARAL, Augusto Jobim do; SABARIEGO, Jesús; SALLES Eduardo Baldissera Carvalho (org.). Algoritarismos. 1. ed. São Paulo: Tirant lo Blanch, 2020. p. 158-170.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s